quarta-feira, 3 de março de 2010

A FISIOTERAPIA E O SUS

A formação dos “cuidadores” da saúde sempre foi uma preocupação marcante dos grupos humanos. Desde a época em que a saúde era associada à magia, nas tribos primitivas, os candidatos a pajés eram criteriosamente selecionados e “treinados tutorialmente”. Na fisioterapia, não é diferente – sempre houve uma grande preocupação com a formação de novos profissionais, desde a sua regulamentação, que tem sido cada vez mais enfatizada. O ensino, não só da fisioterapia, mas também de todas as áreas da saúde tem se defrontado com novos desafios, como a produção de conhecimentos adequados às necessidades de uma população em constante transformação social, cultural e comportamental. Haja vista a mudança de perfil epidemiológico de várias doenças, as mudanças do envelhecimento populacional e o aumento das desigualdades sociais. O desafio atual na formação do fisioterapeuta é sair de um modelo que privilegia a abordagem individual e curativa, incapaz de transcender o espaço da clínica, para outro centrado em uma abordagem coletiva e integralizada que enfatize ações de promoção e proteção à saúde para beneficiar o maior número de pessoas quanto às necessidades reais de saúde.

O perfil do fisioterapeuta deverá contemplar os diferentes espaços do Sistema de Saúde: atender à crescente demanda de empregos nos serviços públicos provenientes da consolidação do SUS e mais recentemente no Programa de Saúde da Família e não apenas atuar na clínica privada e no trabalho com convênios e credenciamentos. Trabalhar no SUS não é uma redução e um empobrecimento dos objetivos educacionais mais “nobres”, como observamos na visão de alguns docentes e dirigentes de nossas instituições de ensino, que prevalece a idéia de que “formar fisioterapeutas para atuar no SUS” seria atender pessoas de baixa renda e enfrentar problemas estruturais diversos, além da suposta baixa credibilidade de um Sistema que estaria inexoravelmente condenado às insuficiências da esfera pública brasileira.

Entretanto é imprescindível a formação de profissionais de saúde com visão ampla do processo saúde-doença, considerando a saúde em sua positividade. Os profissionais sejam médicos, enfermeiros, dentistas, fisioterapeutas, ou outros, devem desenvolver ações no modelo de atenção integral à saúde proposto pelo SUS, participando ativamente de sua construção para desenvolvimento, crescimento e aplicação das suas diretrizes. A participação intensa do fisioterapeuta nos programas propostos pelo SUS, principalmente na atenção primária é condição fundamental para a concretização dessas diretrizes para uma assistência à saúde realmente integral, ao contrário do tradicional modelo medicalizado, fragmentado, hospitalocêntrico e baseado na dependência e exclusão social.

O fisioterapeuta deve entender que possui atribuições específicas inerentes a sua profissão e atribuições gerais como promotor de saúde. Sendo assim, embora a fisioterapia historicamente tenha se mantido no nível da reabilitação, o fisioterapeuta deve compreender que as atribuições específicas não necessariamente tenham que reverter em ações para atenção secundária ou terciária, possui competências e habilidades suficientes para atuação na atenção básica e em ambiente comunitário.

Precisamos desenvolver e promover a satisfação com a atuação no SUS, identificando e conhecendo a importância da fisioterapia nos programas como o PSF, e dando valorização do campo de atuação.

Precisamos desencadear uma visão positiva, otimista do SUS, reconhecendo as dificuldades do Sistema, mas valorizando seus avanços e ideais. Assim se constrói uma visão integral do ser humano “alvo da ação” e não fragmentado em aparelhos e sistemas pelo modelo clínico.

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